Contos cotidianos é um espaço para eu socializar meus escritos a que chamei de contos, podendo ser também espaço para crônicas e cartas. Trata-se de uma produção despretenciosa e que vou escrevendo no dia-a-dia, sem muita vontade, sem muito tempo, quando a expressão vem vindo, se achegando devagar, se instalando e no meio da azáfama que é a minha boa vida me entrego aos devaneios.
Toda escrita tem origem em acontecimentos próximos ou remotos. As velhinhas trambiqueiras foi escrito a partir de noticiário nacional na TV sobre uma velhinha que subtraíra dinheiro da bolsa de uma cliente num supermercado.
AS VELHINHAS TRAMBIQUEIRAS
As
três velhinhas entraram no restaurante caminhando firmes e sentaram-se no meio
do salão, cada uma de costas para outras mesas próximas, em cujas cadeiras
pendiam bolsas das clientes. Ao entrar no salão das refeições as três pararam
na entrada, já dentro da sala, como se vasculhassem o local com os olhos. Um
garçom veio atendê-las e sugeriu uma mesa de canto, talvez pela vista para o
mar ou por ficar num lugar mais tranquilo, mas elas disseram preferir a mesa do
centro.
Sentaram-se,
olharam o cardápio e enquanto duas delas se entretinham com o menu a outra recostou-se no assento,
fazendo uma leve pressão das costas contra o espaldar da cadeira, enquanto seu
braço descia por trás da cadeira e apalpava uma bolsa as suas costas. Meteu a
mão na bolsa e de lá retirou uma carteira de couro vermelho.
A
carteira caiu no chão, ela se abaixou como se fosse pegar algo seu, o garçom aproximou-se
e abaixou-se também, mas ela pegara antes a carteira. As amigas pararam o que
estavam fazendo em expectativa. Os olhos das três se cruzaram expectantes. Ela
olhou para o garçom, sorriu candidamente e agradeceu. Respirou fundo, fez um
comentário sobre suas mãos arrebentadas pela artrite, passeou o olhar pela sala
a sua frente, enquanto as colegas faziam o mesmo, vasculhando o espaço imediatamente
atrás dela. Sorriram ambas para tranquilizá-la e voltaram a atenção para o menu. A velhinha retirou o dinheiro da
carteira vermelha e a um leve sinal das companheiras devolveu-a à bolsa
invadida.
Chamaram
o garçom e fizeram o pedido. Durante o almoço falaram de amenidades, da
violência da cidade e da sorte que tinham de serem amigas e de poderem sair juntas
de vez em quando. Ao final, pagaram a conta, agradeceram o atendimento e
elogiaram o garçom e ao cruzarem a porta de saída uma policial convidou-as a
acompanhá-la até a gerência. As câmeras estavam ligadas.
Teresina,
27/03/2012, 12:00
CORDA PARA SE ENFORCAR
“Se ele me der uma cordinha eu sou capaz de deixar o meu marido por ele”.
Num átmo estas palavras alcançaram a sala vizinha e os ouvidos do marido. Foi o
suficiente para causar uma polvorosa nos ânimos já deteriorados da relação do
casal. O marido ofendidíssimo olhava-a
mais estarrecido do que raivoso, da porta da cozinha escancarada, cuja
iluminação invadira de chofre o ambiente e as duas mulheres até ali entretidas
numa conversa que parecia à primeira vista comprometedora. Entre o olhar
estarrecido e as primeiras frases do marido ofendido, na sua dignidade, foi um
tempo incomensuravelmente rápido. “O que você está dizendo? Você me trai? Quem
é ele?” A mulher e a amiga não sabiam o que dizer. Não esperava ser
interrompida tão bruscamente nos seus devaneios e conversas de final da tarde
enquanto providenciava o jantar. A mulher endireitou-se, olhou para a amiga e
para o marido e disse desajeitada: “Eu estou falando do ator da novela, de como
ele é bonito e talentoso, era isso” e começou a rir sem graça e a amiga ria
também achando graça do mal entendido. O marido olhou-a desconfiado; aproximou-se
da mesa e serviu-se de café entre desconfiado e envergonhado e pensou que
jamais entenderia as mulheres. Sem meias palavras perguntou de chofre se ela
gostava mais do ator, que nem sabia que ela existia, do que dele. Ela e a amiga
agora mais aliviadas acharam graça. A mulher negara, dizendo-lhe que se tratava
de um jeito de se referir aos artistas e que não era possível ele acreditar
naquela besteira e dirigiu-lhe um olhar enternecido como há muito não fazia. Ele
balançou a cabeça e riu (Era uma trégua que prometia). Todos riram e a conversa
encerrara-se ali mesmo entre risos e chistes e sem mais cordas para se
enforcar.
Teresina, 22/09/2010;
14:10
A MOÇA QUE SONHAVA
Porque
ela não conseguia nunca dormir ela sonhava. E porque ela sonhava, ela achava
que dormia o sono profundo dos justos. E na sua trajetória onírica ela viajava
pelo próprio quarto, pela casa, pelos jardins.
Uma
vez era a visita de uma bondosa velhinha que lhe vinha interromper a vigília e
lhe jogava objetos que tilintavam como aço no seu travesseiro de donzela,
deixando aí os mistérios para ela decifrar e ia até a janela despreocupadamente
olhar a rua. Outra vez, outra noite ela planava, iluminada por uma luz neon, toda
de branco com outros companheiros de jornada, sobre corpos inertes de uma terra
arrasada por um tsunami. Acordou ou se deu conta da tragédia em grande
sofrimento psíquico, perguntando-se: o que devo aprender com isso?
As
notícias que recebia do mundo eram oníricas. Ora era de leveza ora de
violência. Às vezes, longe de si, um muro se erguia todo de vidro e tijolos e,
ela via ladrões que lá fora se movimentava e temia por sua família.
Se
não saía de casa e nunca dormia, ela viajava de avião, às vezes nem completava
a viagem e se espantava como da vez em que viajara para a India, muito feliz e
o avião se desviara para a China. Não entendeu o porquê e ficou com certa
frustração porque sabia que mesmo nunca dormindo como no imaginário de Gabriel
Garcia Marquez ela também tinha momentos de plenitude, sofrimento e desilusão
na sua eterna e patológica insônia. E com tais sonhos ela tecia a sua vida e
vivia entre sonhos e ilusões sem nunca sentir a ausência de parentes ou amigos
lá no mundo tecido com as cores do arco-íris dos seus sonhos.
Fortaleza-Ce 17/07/2011
RELUZENTE COMO O SOL
E
porque não sabia cantar e porque queria muito cantar e se apresentar nos palcos
do mundo começou a definhar. A televisão trazia-lhe o sonho aceso, O glamoroso
e atualizado. Não se lembrava como nem quando começara a ficar arredia, calada,
cabisbaixa e silenciosa. Acho que já nascera assim, mas só com o tempo foi se
dando conta de si, desse seu jeito.
Só
se soube - a família, o irmão, as duas irmãs - que ela foi se afastando da
vida, quando caminhou de costas, da calçada da casa da rua estreita, mas alegre,
em direção aos fundos da casa até bater com os costados na cerca de estacas
pontiagudas, ficando dias assim, imóvel, crucificada, sofrida.
Um
dia, serenamente, abriu os olhos, olhou o sol de maio transbordando de azul e
entrou para o seu quarto e se deitou na estreita cama de donzela, olhando
fixamente para o teto de telhas afastadas.
Os
anos compridos que passou na cama foi como moribunda, mesmo antes de definhar,
ao perder toda a carne que se foi sumindo grudada nos ossos finos. Os olhos
fixados no teto eram calmos, serenos e eternos querendo adivinhar mistérios
insondáveis.
As
duas irmãs e o único irmão se revezavam nos cuidados e ternuras e todos
guardavam no coração opresso uma razão para o mal da querida irmã. Que fosse o
resultado de um amor mal sucedido, não correspondido ou proibido; fosse um
cantar retido na garganta, ninguém o sabia ao certo, ninguém ousava falar, quem
sabe, para não alimentar culpas que se geram quando não se sabe os mistérios da
vida explicar. O certo é que numa manhã onde o sol de maio de tão azul e
transluzente não cabia no espaço do mundo de tão transbundante, ela sorriu
candidamente.
Levantou-se
e caminhou rumo à calçada, leve, leve, leve e da calçada ganhou o meio da rua
como se planasse e foi subindo, subindo como um balão de gás que se desprende
das mãos dos meninos vadios e foi subindo e subindo e sumindo e sumindo e se
confundindo com o azul do sol dourado que reverberava.
Teresina, 06/07/2011; 23:40
MAÇÃS VERDES
Não sei que atitude tomar. Subitamente vejo-me com o
esqueleto inofensivo da maçã verde que eu acabo de comer sentada no banco ao
longo da avenida. Seguro-o com o indicador e o polegar e vou roendo os
restinhos da massa azeda que se mistura na minha boca com os caroços
desgostosos e minúsculos. Medito sobre tal jantar. Os livros metidos
embaralhados dentro de uma sacola de plástico jazem ali no banco comprido e
morno do sol da tarde. A rua ferve de carros que buzinam endoidecidos e os
transeuntes mascarados do aborrecimento do fim do dia cruzam com o meu olhar
indagador. Olho novamente para o talo da maçã e percebo, mais do que vejo, a
insignificância de ser maçã, pois o destino de todas as maçãs é o de serem
trituradas pelos dentes das pessoas quando não ficam apodrecidas no fundo de
algum caixote ou congelador. Estalo, sem querer, a língua no céu da boca e pela
primeira vez eu sinto o gosto cítrico que vai me dominando inteira. Talvez aí
esteja a importância de ser maçã, o seu gosto inconfundível, único, diferente
de todos os outros sabores. Rio da minha súbita descoberta, e as pessoas que me
olham, sem me verem, talvez se perguntassem, se me vissem, se eu sou doida. É
que essas pessoas não sabem que sabor tem uma maçã, nunca prestaram atenção,
não lhes sobra tempo para essas pequenas importantes coisas que fazem o
verdadeiro sentido da vida, nem nunca experimentaram devorá-la na praça, de
pernas cruzadas sobre um banco, como eu nesse momento, sem dar importância para
o que poderão imaginar. Minhas pernas já estão doloridas da posição incômoda e
quando as descruzo meu pé direito começa a pinicar da dormência. Levanto-me e
bato com o pé no chão até passar de todo o estado desagradável. Com o esforço,
o talo da maçã escapole-me dos dedos descuidados, indo rolar como um bêbado
silencioso até o gramado ralo do canteiro e lá fica a olhar-me censurando-me o
abandono. Meus dedos estão umedecidos do suco cítrico da maçã verde. Levo-os à
boca, chupo-os com volúpia e outra imagem antiga antepõe-se aos meus pensamentos,
o da menina que antes de dormir levava o polegar à boca. Um medo infantil obriga-me a olhar para os lados, com medo de
que alguém venha me interromper esse prazer, como fazia minha mãe enquanto eu
dormia. Sinto dentro de mim aquele temor intolerável de perdê-lo. Ele fora o
meu primeiro companheiro silencioso de alguns minutos de solidão. Abaixo-me
penalizada e fico a olhando-o ali jogado, espezinhado e, vejo-o subitamente
crescer até ficar do tamanho da minha angústia. Toco-o com o dedo molhado de
saliva, e sinto-lhe a carícia áspera do instante passado. Um arrepio toma-me e
eu fico possuída desse deslumbramento dos raros instantes. Já as formigas
começam a roer o que lhe resta das entranhas como abutres esfaimados,
penetrando na nossa intimidade. Levanto-me de chofre e, tomada de uma raiva
incontida, esmago com os pés aquele sobejo de maçã com formigas. Piso-o, mais
uma vez. O pé me pesa absurdamente. Eu não quero dividi-lo com as formigas,
elas não podem saber da importância desse sabor diferente que me proporcionara
essa maçã devorada. Elas são simplesmente umas formigas, umas formigas
medíocres e sem importância e eu abomino mediocridade. Percebo que é noite e
que o claro da avenida me leva a crer que é ainda dia, mas já é noite. A fonte
jorra alto, rivalizando em altura com os postes que margeiam a avenida e seus
respingos me aliviam o rosto quente. É a chuva de cristal que sobe da terra,
querendo tocar o infinito. A brisa passa timidamente e espalha seu frescor
juntamente com os respingos prateados. O gosto cítrico continua na minha boca,
no meu corpo inteiro. Os meus olhos são pura maçã verde a escorrer pelo meu
rosto o suco com sabor diferente. As pessoas que passam, se me vissem, poderiam
achar que estou louca, porque não sabem o que me invade neste momento, mas elas
não me vêem como não vêem o resto do mundo, porque estão muito para dentro de
si mesmas. Prefiro mesmo fazer amizade momentânea e passageira com os
esqueletos de maçãs verdes. Eles ficam calados, respeitando o meu silêncio, não
me aborrecem e, ao invés deles me destruírem eu os destruo, porque sou mais
forte do que eles; sou mais forte do que um carro cheio de talinhos de maçãs.
As pessoas engolem-se, digerem-se, como eu faço todas as tardes com minhas
maçãs e não se surpreendem. Tudo é tão natural! Assustadoramente natural essa
irracionalidade. O absurdo invisível, intocável dentro das pessoas.
Dissimulado. Absurdamente dissimulado. Está na hora de se reformular o velho
conceito de que o homem é o único animal racional. Eu, por mim, dou o título
aos meus mirrados talinhos, mas tão nutridos de bondade e paciência feita do
silêncio da minha solidão. Não adianta tentar mudar os fatos. Fiquei aqui esse
tempão à toa, absurdamente à toa. Os fatos estão aqui bem na frente do meu
nariz. Contundentes, no silêncio que cresce na multidão dispersa na monotonia
do cotidiano, na angústia que vibra na alma de cada pessoa que passa, no riso
já descrente do adolescente, na criança sem infância dos jardins públicos. Tudo
é uma mentira, os sonhos, as aspirações que morrem bem ali, em cada esquina,
crucificados no absurdo do cotidiano.
Teresina, 17/05/1977
ESTRANHO
Eu não compreendo por que manténs o estúdio. Não vende nada, exposições
que são atestados de fracasso. Já gastaste dinheiro bastante com viagens que se
não fora pelo conhecer novas pessoas, manter novos contatos, criar alguns laços
não vejo para que serviram tantos dispêndios.
Dizes que tens pra ti que tua hora soará cedo ou tarde e eu digo que será
nunca. Sou tua mulher, tua musa fracassada e teus trabalhos falam de uma luta
que não deu certo.
Naquela noite te conheci com as ruas da cidade inquietas e molhadas.
Estavas lá no fundo da cantina, o copo de vinho, restos de pizza. A melancolia
pincelava de verde o olhar. Não sei como fui parar na tua mesa. Talvez porque
fosse Natal e eu estivesse sozinha e as ruas estivessem cheias de gente fazendo
compras. De repente deparamo-nos conversando animadamente, bebendo vinho,
comendo pizza. Passeamos de mãos dadas pelas ruas, vendo vitrines luminosas,
sentindo o cheiro do ar pesado.
O estúdio desde a primeira vez me
parecera apertado, desorganizado e com uma mistura de estilos de enlouquecer.
Trabalhos inacabados e dispostos em cavaletes ou jogados pelo chão acarpetado.
E inacabada foi a paixão que nos tomou inteiros durante toda aquela noite fria
e chuvosa e em todos os outros dias que se seguiram.
Ainda agora é como se mantivesses o mesmo estúdio, agora arrumado e tudo
tão metodicamente arrumado e limpo com uma áspera nota de estranheza. Entrei lá
como uma estranha que na verdade sempre fora. O zelador me emprestara a chave e
me adiantara que uma vez por semana a faxineira vinha pôr o estúdio em ordem.
Do armário retirei a garrafa de vinho e dois copos onde bebi-lhe o conteúdo como se fôssemos dois. O fio
elétrico não estava mais no armador, no entanto eu tive a sensação de que o
vira ao entrar. Que maneira de morrer mais estúpida e sem graça. Li
hoje nos jornais que teus quadros, os mesmo quadros já expostos estão outra vez
na galeria e muitos trabalhos vendidos. Fiquei surpresa e me lembrei do que me
disseste uma vez sobre a chegada da tua hora, se é tarde não posso dizer. É
mais uma questão de ponto de vista. Agora os jornais e a televisão falam do teu
sucesso e emitem opiniões a respeito do jovem artista desaparecido
prematuramente. Conhecidos foram entrevistados e fizeram depoimentos que nada
têm a ver contigo. Eu sei como tu vias o mundo e te situavas nele. Falam de
teus amores, tuas aventuras e até de um possível caso de homossexualismo e que
me surpreendeu a firmeza da opinião. Na verdade tu não podes mais te defender e
tens que admitir que maledicências fazem parte de quem está em evidência e tu
agora és o artista que a morte deu a vida.
Não sofri verdadeiramente com tua morte estúpida, quem pode escolhe como
dar cabo á vida, assim como entrei saí dela, sem grande importância, sem
espalhafatos. Para mim, tu foste o modelo de efêmera doçura, perplexidade e
incoerência e que às vezes tenho a impressão de que foste um miragem. Talvez a
minha ida ao estúdio tenha essa conotação urgente: saber se realmente foi verdade o que fomos. Peguei o livro de Mr.
Maugham que estavas lendo, abri-o na página marcada e pareceu-me te ver em
Larry no mesmo brilho indefinível do olhar, no mesmo desejo de salvar o gênero
humano dos baixos instintos. Disseste-me uma vez que não gostavas de Larry por ele se parecer muito
contigo, no entanto ele te fascinava pela personalidade forte que brotava dele. Devolvo
o livro à estante, gostaria de relê-lo, no entanto não quero nada que te tenha
pertencido tão intimamente. Tua lembrança me irrita agora. Não posso admitir a
tua falta de imaginação para morrer. Afinal és um artista de sucesso agora e
tudo deveria ter sido feito em grande estilo. Saio afinal da tua vida
definitivamente, vida a que nunca pertenci efetivamente. Nos encontramos,
caminhamos paralelamente algum tempo até que nossa estrada se bifurcara e
seguimos o caminho que escolhemos em sã consciência.
Teresina, 06/09/1984. 3:00 h de 07/09/1984
RODOVIÁRIA
Era
impossível não se impacientar àquela hora da noite na rodoviária O terminal
rodoviário era qualquer coisa repelente que causava nojo e repulsa
principalmente quando caía um aguaceiro como estava acontecendo. O vento forte
impelia uma camada espessa de água contra os passageiros que se acotovelavam
jogados pelos bancos imundos, recostados contra as paredes nodosas e
bolorentas. Assemelhavam-se a um bando
de mendigos malcheirosos que não tendo onde passar a noite, acotovelavam-se em
qualquer lugar onde pudessem resguardar a cabeça da chuva que saía
intermitente.
O lamaceiro formava uma camada fina e pegajosa sobre o
piso cimentado e, à medida que as pessoas iam e vinham os chapiscos de
lama iam borrifando as pernas das calças deixando-as como se fossem bordadas
com desenhos irregulares.
Desde cedo da noite que eu ali estava para embarcar para uma cidade
litorânea a negócios. Eu havia chegado no dia anterior e resolvera conhecer um
pouco a cidade que me parecera interessante numa minha passagem anterior e, uma
vez que eu podia dispor de dois ou três dias parecera-me conveniente demorar-me
um pouco ali. Gosto de conhecer novos lugares e como o meu trabalho obriga-me a
estar sempre num ou outro lugar acho isso ótimo.
O tempo melhorara um pouco. No ar apenas uma garoa que
de tão insistente parecia birra do tempo contra aqueles que ali estavam como a
descontar pecados abomináveis. Impaciente eu caminhava acompanhando o
comprimento do terminal. Ia e vinha com passos miúdos, sem pressa, cadenciados
como se os contasse. Sento-me e começo a folhear um livro que eu trouxera com o
intuito de passar o tempo quando dou com uma moça que como eu caminha pra lá e
pra cá como se estivesse roída de impaciência. Comecei a acompanhá-la com o
olhar naquele passeio igual, ritmado. Tinha cabelos castanhos e opacos, talvez
porque estivessem úmidos da chuva; pequena, magra, queimada não do sol da praia
ou piscina mas desse sol diário que fornece uma cor parda e trigueira. Era
feia, mas havia na sua figura qualquer coisa que me atraiu não só o olhar mas
também os sentidos. Não consegui despregar os olhos dela. Tinha uns olhos tão
comuns, inexpressivos e sem graça que jamais vi em alguém. Parecia
uma das personagens arrancada das páginas de Maugham. Agora o que é singular,
os cabelos jogados para trás das orelhas percebi-as pequenas e delicadas. Os
lábios rosados e bem desenhados suavizavam o todo do rosto. Acho que ela
percebera o meu interesse pois uma ou duas vezes olhara rapidamente para o meu
lado e enrugara a testa num evidente sinal de desagrado, continuando a sua
caminhada. De repente ela parara na minha frente e dando dois passos adiante
senta-se no mesmo banco à distância de duas pessoas. O casaco de nylon que
usava na ocasião era de uma cor viva e, tão folgado que não me permitia
entrever parte de sua silhueta, mas imaginei que fosse de seios pouco volumosos
pelo par de calças apertadas que usava, deixando perceber uma silhueta delgada. Eu tomara um quatro num hotel no centro da cidade por ser mais
conveniente para quem não conhece a cidade. Teresina é uma cidade engraçada.
Tem-se a impressão de que é enorme vista de determinados ângulos. O centro da
cidade, os locais mais movimentados do comércio assemelham-se a uma grande cruz
onde as pessoas caminham pra lá e pra cá, despreocupados como se nada mais
tivessem a fazer na vida enquanto outros correm como se tivessem pressa de
chegar a algum lugar com hora marcada. Talvez essas afirmações sejam resultado
de rápidas impressões de pessoas forasteiras como eu. O certo é que eu estava
na rodoviária esperando o meu ônibus e aquele aguaceiro me irritava. Mas,
aconteceu-me uma coisa muito interessante que, se não fora isso essa narrativa
não teria uma linha sequer para sobre-existir. Caro leitor, confesso que não sou homem que ao ver uma mulher vá logo
dando em cima dela. Normalmente sou cauteloso e comedido, no entanto senti-me
impelido para aquela moça de maneira irresistível e foi com surpresa, até para
mim mesmo, que me levantando do meu lugar, pedi licença e sentei-me ao seu
lado. Como ela não dissera nem sim, nem não fui me sentando com o firme
propósito de dali não arredar pé até que eu conversasse com tão interessante
criatura, a meu ver. Por
mais que eu me esforçasse a nossa conversa foi uma meia dúzia de perguntas
incoerentes minhas e monossílabos, mal articulados, dela. Apesar de me
responder com educação, olhava-me com reserva e impaciência. Ao cabo de alguns
minutos pedi-lhe que me esperasse enquanto eu ia pegar a minha bagagem, ali
mesmo, num daqueles guarda-bagagens da rodoviária. Ela levantou-se e, de pé na
minha frente, parecia bem mais alta do que me parecera ao primeiro exame.
Olhou-me de frente e os seus olhos eram grandes e negros o que lhe aumentava a
inexpressividade que inexplicavelmente me atraíam como se eu estivesse num
edifício bem alto e de lá avistasse o asfalto de uma rua movimentada e disse-me
numa frase clara e completa: “Talvez você não me encontre mais ao voltar, pois
eu resolvi não esperar mais o ônibus aonde vem o meu marido, por ser muito
tarde.” Ela me falou isso tão calma e inocente como se não tivesse percebido a
força do meu interesse por ela. Eu ri sem graça, dei-lhe boa noite e saí para
pegar a bagagem. Quando voltei ao banco ela havia realmente desaparecido o que
me deixou uma sensação de que fora apenas uma miragem; que de repente eu
recostara no banco, cochilara e tivera um sonho. O certo é que todas as vezes
que passo por lá, abro os olhos e vasculho por entre todas aquelas pessoas para
ver se a vejo outra vez, pois, na verdade, nunca a esqueci e queria ter a
certeza de que realmente eu não sonhara.
Teresina, 17/01/1984
NAZINHA
O movimento de ônibus é
intenso. O barulho ensurdecedor dos motores repercute no ar, o cheiro de óleo
queimado inunda a atmosfera poluída. O vai-e-vem apressado dos transeuntes
mastiga nos pés as chupas de laranja, cascas de banana, resíduos de comida ali
jogados displicentemente pelos passageiros. Há algumas horas Nazinha permanece
ali encostada na coluna suja e carasquenta
do vão do terminal. Um cheiro nauseabundo de lama, de água podre, de
restos de comida invade-lhe o estômago. Seu olhar indiferente vaga pelas
proximidades, indo se perder nas águas barrentas do Parnaíba. Nem o apito
sofrido da gaiola que faz a travessia Timon-Teresina acorda-a da apatia em que
se encontra. Já faz parte da sua rotina ali na beira do rio, junto com as
lavadeiras habituais, com as balsas que chegam nos fins de semana, os balseiros
que vão e vêm a contar estranhas estórias do Cabeça-de-Cuia. Quando à noite,
Baiano arranca da viola a canção antiga de pescador com cheiro de lenda, seus
olhos se abrem para o rio e imagina-se fugindo nas águas em busca de algo
indefinível. Nestas ocasiões, lembra-se sempre daquele estranho homem, das
estória contadas por sua avó no terreiro apenas iluminado pela luz baça das
estrela, que metendo os pés descalços no azul do mar, caminha por elas
suavemente a buscar talvez a esperança perdida pelos velhos pescadores.
Sua bagagem se resume num
saco plástico com alguma roupa. De dentro do saco rebrilha um espelho desbotado
e alguma coisa de sua vaidade. Nazinha continua recostada na coluna, de braços
cruzados no peito exuberante. A vendedora de laranjas comenta a dúvida da moça
em voltar para casa. “Nazinha tem razão, seu padrasto quando bebe quer espancar
todo mundo; bota todo mundo de casa pra fora e hoje mesmo foi lá a polícia e
ela não se sente bem com isso e, parece, eu não sei bem, eu aqui não gosto de
dar pitaco na vida de seu ninguém - disse estirando os olhos para a vizinha -
ele anda a perseguir a pobrezinha. Coitada, sabe, eu tenho pena dela, tão
bonitinha e com essa sorte infeliz. Ah, o que uma moça bonita não sofre quando
tenta se resguardar”
O ônibus de Timon chega
naquele momento e Nazinha vê sair de dentro sua mãe. Olhos angustiados volvendo
inquietos pelas imediações antes mesmo do carro estacionar. Ao deparar com
Nazinha sua fisionomia abre-se num alívio benfazejo; aproxima-se da filha pondo-lhe um olhar tão doce que
Nazinha faz menção de lançar-lhe os braços ao pescoço. Fica, todavia, só no
gesto. “Vamos para casa minha filha, já está tudo bem”. Olha para a mãe
desalentada e decide naquele momento: não irá para casa, é tarde.
Nenhuma luz de candeeiro
brilha na superfície lisa do rio que cochila silencioso. Somente em alguns
pontos incertos vêem-se luzes amareladas mergulhadas no fundo do rio a sondar
mistério. Na alma de Nazinha não brilha nenhuma luz, pois nela não mergulhou a
paz. Sua voz é cansada e atônica.
“Vou esperar Adão e vou-me embora com ele mãe.” – A mãe fita-a atônita, de seus
lábios escapa a surpresa incontida: “O quê?”. A repetição não se faz esperar
pausada e contundente: “Vou-me embora com Adão.” A mão da mulher dispara
incontrolável atingindo o rosto moreno de Nazinha. A estupefação é geral. Nos
rostos de cada um há interrogação muda e logo se forma um grupo ao redor da
cena. As perguntas desencontradas se sucedem. Sua mãe chora baixinho,
desalentada. Nazinha não diz nada. De seus olhos plúmbeos derramam-se uma
intensa melancolia. Aproxima-se timidamente da mãe, desajeitada. Sua voz sai
sussurrante: “Mãe, é melhor assim, prefiro pertencer ao homem que amo a viver
perseguida pelo seu marido. Mãe, eu não agüento mais. Vá para casa e tudo vai
dar certo a senhora vai ver. Adão é bom, gosta de mim, talvez até a gente se
case, não é isso que a senhora quer?”
Nazinha ficara na casa da
vendedora de laranjas enquanto Adão não apareceu. Sua balsa chegara, numa manhã
chuvosa, de Amarante, carregada de legumes. Nazinha esperara-o sempre com o
olhar carregado de ansiedade. Toda balsa que aportava corria à beira do cais
para voltar desiludida. Já ia para a segunda semana que Adão partira, porém
hoje o seu olhar é mais ansioso e carregado de apreensão; sabe que de hoje para
amanhã ele aportará – Baiano dissera – e não sabe agora o que dizer nem como se
comportar. Pensa em Adão agora de modo diferente. Teme ter se precipitado, mas
o que é feito é sem jeito, pensa ainda e não é agora que vai recuar.
A chuva ainda bate
monotonamente no teto do galpão do terminal e o seu cair contínuo soa aos seus
ouvidos como triste balada funérea. Súbito surge lá longe, rompendo o nevoeiro
tosca embarcação que lentamente desliza pela superfície encrespada do velho
monge. Após uma espera que lhe pareceu eterna a “Primavera” aporta. Nem bem
encosta no cais já Adão, sem camisa, calça arregaçadas até os joelhos, pula
para fora da embarcação e puxando um grosso cabo de fibra amarra a embarcação à
margem. Em seguida curva-se diante da imagem de Santa Bárbara. Dentro da balsa há
ainda dois homens e balançando-se numa rede uma mulher. Nazinha tenta recuar
diante da presença da desconhecida, Adão grita-lhe num entusiasmo que repercute
através dos pingos metálicos da chuva. “Nazinha você veio me esperar?” Ela
corre para ele a roupa fina grudada no corpo moreno a marcar-lhes as formas,
esquecida da presença da estranha. O abraço que se segue é firme e confiante.
Entram na embarcação molhados e uma doce alegria pincela-lhes as feições. A
estranha olha-a e sorri. As dúvidas se dissipam e Nazinha sente que naquele
momento as palavras soariam estranhas e desnecessárias. O futuro é o presente.
Teresina.
29/04/77