terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CONTOS COTIDIANOS

Contos cotidianos é um espaço para eu socializar meus escritos a que chamei de contos, podendo ser também espaço para crônicas e cartas. Trata-se de uma produção despretenciosa e que vou escrevendo no dia-a-dia, sem muita vontade, sem muito tempo, quando a expressão vem vindo, se achegando devagar, se instalando e no meio da azáfama que é a minha boa vida me entrego aos devaneios.
Toda escrita tem origem em acontecimentos próximos ou remotos. As velhinhas trambiqueiras foi escrito a partir de noticiário nacional na TV sobre uma velhinha que subtraíra dinheiro da bolsa de uma cliente num supermercado.



AS VELHINHAS TRAMBIQUEIRAS


As três velhinhas entraram no restaurante caminhando firmes e sentaram-se no meio do salão, cada uma de costas para outras mesas próximas, em cujas cadeiras pendiam bolsas das clientes. Ao entrar no salão das refeições as três pararam na entrada, já dentro da sala, como se vasculhassem o local com os olhos. Um garçom veio atendê-las e sugeriu uma mesa de canto, talvez pela vista para o mar ou por ficar num lugar mais tranquilo, mas elas disseram preferir a mesa do centro.
Sentaram-se, olharam o cardápio e enquanto duas delas se entretinham com o menu a outra recostou-se no assento, fazendo uma leve pressão das costas contra o espaldar da cadeira, enquanto seu braço descia por trás da cadeira e apalpava uma bolsa as suas costas. Meteu a mão na bolsa e de lá retirou uma carteira de couro vermelho.
A carteira caiu no chão, ela se abaixou como se fosse pegar algo seu, o garçom aproximou-se e abaixou-se também, mas ela pegara antes a carteira. As amigas pararam o que estavam fazendo em expectativa. Os olhos das três se cruzaram expectantes. Ela olhou para o garçom, sorriu candidamente e agradeceu. Respirou fundo, fez um comentário sobre suas mãos arrebentadas pela artrite, passeou o olhar pela sala a sua frente, enquanto as colegas faziam o mesmo, vasculhando o espaço imediatamente atrás dela. Sorriram ambas para tranquilizá-la e voltaram a atenção para o menu. A velhinha retirou o dinheiro da carteira vermelha e a um leve sinal das companheiras devolveu-a à bolsa invadida.
Chamaram o garçom e fizeram o pedido. Durante o almoço falaram de amenidades, da violência da cidade e da sorte que tinham de serem amigas e de poderem sair juntas de vez em quando. Ao final, pagaram a conta, agradeceram o atendimento e elogiaram o garçom e ao cruzarem a porta de saída uma policial convidou-as a acompanhá-la até a gerência. As câmeras estavam ligadas.
Teresina, 27/03/2012, 12:00 

CORDA PARA SE ENFORCAR


 “Se ele me der uma cordinha eu sou capaz de deixar o meu marido por ele”. Num átmo estas palavras alcançaram a sala vizinha e os ouvidos do marido. Foi o suficiente para causar uma polvorosa nos ânimos já deteriorados da relação do casal.  O marido ofendidíssimo olhava-a mais estarrecido do que raivoso, da porta da cozinha escancarada, cuja iluminação invadira de chofre o ambiente e as duas mulheres até ali entretidas numa conversa que parecia à primeira vista comprometedora. Entre o olhar estarrecido e as primeiras frases do marido ofendido, na sua dignidade, foi um tempo incomensuravelmente rápido. “O que você está dizendo? Você me trai? Quem é ele?” A mulher e a amiga não sabiam o que dizer. Não esperava ser interrompida tão bruscamente nos seus devaneios e conversas de final da tarde enquanto providenciava o jantar. A mulher endireitou-se, olhou para a amiga e para o marido e disse desajeitada: “Eu estou falando do ator da novela, de como ele é bonito e talentoso, era isso” e começou a rir sem graça e a amiga ria também achando graça do mal entendido. O marido olhou-a desconfiado; aproximou-se da mesa e serviu-se de café entre desconfiado e envergonhado e pensou que jamais entenderia as mulheres. Sem meias palavras perguntou de chofre se ela gostava mais do ator, que nem sabia que ela existia, do que dele. Ela e a amiga agora mais aliviadas acharam graça. A mulher negara, dizendo-lhe que se tratava de um jeito de se referir aos artistas e que não era possível ele acreditar naquela besteira e dirigiu-lhe um olhar enternecido como há muito não fazia. Ele balançou a cabeça e riu (Era uma trégua que prometia). Todos riram e a conversa encerrara-se ali mesmo entre risos e chistes e sem mais cordas para se enforcar.

Teresina, 22/09/2010; 14:10




A MOÇA QUE SONHAVA

Porque ela não conseguia nunca dormir ela sonhava. E porque ela sonhava, ela achava que dormia o sono profundo dos justos. E na sua trajetória onírica ela viajava pelo próprio quarto, pela casa, pelos jardins.
Uma vez era a visita de uma bondosa velhinha que lhe vinha interromper a vigília e lhe jogava objetos que tilintavam como aço no seu travesseiro de donzela, deixando aí os mistérios para ela decifrar e ia até a janela despreocupadamente olhar a rua. Outra vez, outra noite ela planava, iluminada por uma luz neon, toda de branco com outros companheiros de jornada, sobre corpos inertes de uma terra arrasada por um tsunami. Acordou ou se deu conta da tragédia em grande sofrimento psíquico, perguntando-se: o que devo aprender com isso?
As notícias que recebia do mundo eram oníricas. Ora era de leveza ora de violência. Às vezes, longe de si, um muro se erguia todo de vidro e tijolos e, ela via ladrões que lá fora se movimentava e temia por sua família.
Se não saía de casa e nunca dormia, ela viajava de avião, às vezes nem completava a viagem e se espantava como da vez em que viajara para a India, muito feliz e o avião se desviara para a China. Não entendeu o porquê e ficou com certa frustração porque sabia que mesmo nunca dormindo como no imaginário de Gabriel Garcia Marquez ela também tinha momentos de plenitude, sofrimento e desilusão na sua eterna e patológica insônia. E com tais sonhos ela tecia a sua vida e vivia entre sonhos e ilusões sem nunca sentir a ausência de parentes ou amigos lá no mundo tecido com as cores do arco-íris dos seus sonhos.
Fortaleza-Ce 17/07/2011 


RELUZENTE COMO O SOL

E porque não sabia cantar e porque queria muito cantar e se apresentar nos palcos do mundo começou a definhar. A televisão trazia-lhe o sonho aceso, O glamoroso e atualizado. Não se lembrava como nem quando começara a ficar arredia, calada, cabisbaixa e silenciosa. Acho que já nascera assim, mas só com o tempo foi se dando conta de si, desse seu jeito.
Só se soube - a família, o irmão, as duas irmãs - que ela foi se afastando da vida, quando caminhou de costas, da calçada da casa da rua estreita, mas alegre, em direção aos fundos da casa até bater com os costados na cerca de estacas pontiagudas, ficando dias assim, imóvel, crucificada, sofrida.
Um dia, serenamente, abriu os olhos, olhou o sol de maio transbordando de azul e entrou para o seu quarto e se deitou na estreita cama de donzela, olhando fixamente para o teto de telhas afastadas.
Os anos compridos que passou na cama foi como moribunda, mesmo antes de definhar, ao perder toda a carne que se foi sumindo grudada nos ossos finos. Os olhos fixados no teto eram calmos, serenos e eternos querendo adivinhar mistérios insondáveis.
As duas irmãs e o único irmão se revezavam nos cuidados e ternuras e todos guardavam no coração opresso uma razão para o mal da querida irmã. Que fosse o resultado de um amor mal sucedido, não correspondido ou proibido; fosse um cantar retido na garganta, ninguém o sabia ao certo, ninguém ousava falar, quem sabe, para não alimentar culpas que se geram quando não se sabe os mistérios da vida explicar. O certo é que numa manhã onde o sol de maio de tão azul e transluzente não cabia no espaço do mundo de tão transbundante, ela sorriu candidamente.
Levantou-se e caminhou rumo à calçada, leve, leve, leve e da calçada ganhou o meio da rua como se planasse e foi subindo, subindo como um balão de gás que se desprende das mãos dos meninos vadios e foi subindo e subindo e sumindo e sumindo e se confundindo com o azul do sol dourado que reverberava.
Teresina, 06/07/2011; 23:40


MAÇÃS VERDES 
Não sei que atitude tomar. Subitamente vejo-me com o esqueleto inofensivo da maçã verde que eu acabo de comer sentada no banco ao longo da avenida. Seguro-o com o indicador e o polegar e vou roendo os restinhos da massa azeda que se mistura na minha boca com os caroços desgostosos e minúsculos. Medito sobre tal jantar. Os livros metidos embaralhados dentro de uma sacola de plástico jazem ali no banco comprido e morno do sol da tarde. A rua ferve de carros que buzinam endoidecidos e os transeuntes mascarados do aborrecimento do fim do dia cruzam com o meu olhar indagador. Olho novamente para o talo da maçã e percebo, mais do que vejo, a insignificância de ser maçã, pois o destino de todas as maçãs é o de serem trituradas pelos dentes das pessoas quando não ficam apodrecidas no fundo de algum caixote ou congelador. Estalo, sem querer, a língua no céu da boca e pela primeira vez eu sinto o gosto cítrico que vai me dominando inteira. Talvez aí esteja a importância de ser maçã, o seu gosto inconfundível, único, diferente de todos os outros sabores. Rio da minha súbita descoberta, e as pessoas que me olham, sem me verem, talvez se perguntassem, se me vissem, se eu sou doida. É que essas pessoas não sabem que sabor tem uma maçã, nunca prestaram atenção, não lhes sobra tempo para essas pequenas importantes coisas que fazem o verdadeiro sentido da vida, nem nunca experimentaram devorá-la na praça, de pernas cruzadas sobre um banco, como eu nesse momento, sem dar importância para o que poderão imaginar. Minhas pernas já estão doloridas da posição incômoda e quando as descruzo meu pé direito começa a pinicar da dormência. Levanto-me e bato com o pé no chão até passar de todo o estado desagradável. Com o esforço, o talo da maçã escapole-me dos dedos descuidados, indo rolar como um bêbado silencioso até o gramado ralo do canteiro e lá fica a olhar-me censurando-me o abandono. Meus dedos estão umedecidos do suco cítrico da maçã verde. Levo-os à boca, chupo-os com volúpia e outra imagem antiga antepõe-se aos meus pensamentos, o da menina que antes de dormir levava o polegar à boca. Um medo infantil  obriga-me a olhar para os lados, com medo de que alguém venha me interromper esse prazer, como fazia minha mãe enquanto eu dormia. Sinto dentro de mim aquele temor intolerável de perdê-lo. Ele fora o meu primeiro companheiro silencioso de alguns minutos de solidão. Abaixo-me penalizada e fico a olhando-o ali jogado, espezinhado e, vejo-o subitamente crescer até ficar do tamanho da minha angústia. Toco-o com o dedo molhado de saliva, e sinto-lhe a carícia áspera do instante passado. Um arrepio toma-me e eu fico possuída desse deslumbramento dos raros instantes. Já as formigas começam a roer o que lhe resta das entranhas como abutres esfaimados, penetrando na nossa intimidade. Levanto-me de chofre e, tomada de uma raiva incontida, esmago com os pés aquele sobejo de maçã com formigas. Piso-o, mais uma vez. O pé me pesa absurdamente. Eu não quero dividi-lo com as formigas, elas não podem saber da importância desse sabor diferente que me proporcionara essa maçã devorada. Elas são simplesmente umas formigas, umas formigas medíocres e sem importância e eu abomino mediocridade. Percebo que é noite e que o claro da avenida me leva a crer que é ainda dia, mas já é noite. A fonte jorra alto, rivalizando em altura com os postes que margeiam a avenida e seus respingos me aliviam o rosto quente. É a chuva de cristal que sobe da terra, querendo tocar o infinito. A brisa passa timidamente e espalha seu frescor juntamente com os respingos prateados. O gosto cítrico continua na minha boca, no meu corpo inteiro. Os meus olhos são pura maçã verde a escorrer pelo meu rosto o suco com sabor diferente. As pessoas que passam, se me vissem, poderiam achar que estou louca, porque não sabem o que me invade neste momento, mas elas não me vêem como não vêem o resto do mundo, porque estão muito para dentro de si mesmas. Prefiro mesmo fazer amizade momentânea e passageira com os esqueletos de maçãs verdes. Eles ficam calados, respeitando o meu silêncio, não me aborrecem e, ao invés deles me destruírem eu os destruo, porque sou mais forte do que eles; sou mais forte do que um carro cheio de talinhos de maçãs. As pessoas engolem-se, digerem-se, como eu faço todas as tardes com minhas maçãs e não se surpreendem. Tudo é tão natural! Assustadoramente natural essa irracionalidade. O absurdo invisível, intocável dentro das pessoas. Dissimulado. Absurdamente dissimulado. Está na hora de se reformular o velho conceito de que o homem é o único animal racional. Eu, por mim, dou o título aos meus mirrados talinhos, mas tão nutridos de bondade e paciência feita do silêncio da minha solidão. Não adianta tentar mudar os fatos. Fiquei aqui esse tempão à toa, absurdamente à toa. Os fatos estão aqui bem na frente do meu nariz. Contundentes, no silêncio que cresce na multidão dispersa na monotonia do cotidiano, na angústia que vibra na alma de cada pessoa que passa, no riso já descrente do adolescente, na criança sem infância dos jardins públicos. Tudo é uma mentira, os sonhos, as aspirações que morrem bem ali, em cada esquina, crucificados no absurdo do cotidiano.
Teresina, 17/05/1977 

ESTRANHO

Eu não compreendo por que manténs o estúdio. Não vende nada, exposições que são atestados de fracasso. Já gastaste dinheiro bastante com viagens que se não fora pelo conhecer novas pessoas, manter novos contatos, criar alguns laços não vejo para que serviram tantos dispêndios.
Dizes que tens pra ti que tua hora soará cedo ou tarde e eu digo que será nunca. Sou tua mulher, tua musa fracassada e teus trabalhos falam de uma luta que não deu certo.
Naquela noite te conheci com as ruas da cidade inquietas e molhadas. Estavas lá no fundo da cantina, o copo de vinho, restos de pizza. A melancolia pincelava de verde o olhar. Não sei como fui parar na tua mesa. Talvez porque fosse Natal e eu estivesse sozinha e as ruas estivessem cheias de gente fazendo compras. De repente deparamo-nos conversando animadamente, bebendo vinho, comendo pizza. Passeamos de mãos dadas pelas ruas, vendo vitrines luminosas, sentindo o cheiro do ar pesado.
 O estúdio desde a primeira vez me parecera apertado, desorganizado e com uma mistura de estilos de enlouquecer. Trabalhos inacabados e dispostos em cavaletes ou jogados pelo chão acarpetado. E inacabada foi a paixão que nos tomou inteiros durante toda aquela noite fria e chuvosa e em todos os outros dias que se seguiram.  
Ainda agora é como se mantivesses o mesmo estúdio, agora arrumado e tudo tão metodicamente arrumado e limpo com uma áspera nota de estranheza. Entrei lá como uma estranha que na verdade sempre fora. O zelador me emprestara a chave e me adiantara que uma vez por semana a faxineira vinha pôr o estúdio em ordem. Do armário retirei a garrafa de vinho e dois copos onde bebi-lhe  o conteúdo como se fôssemos dois. O fio elétrico não estava mais no armador, no entanto eu tive a sensação de que o vira ao entrar. Que maneira de morrer mais estúpida e sem graça. Li hoje nos jornais que teus quadros, os mesmo quadros já expostos estão outra vez na galeria e muitos trabalhos vendidos. Fiquei surpresa e me lembrei do que me disseste uma vez sobre a chegada da tua hora, se é tarde não posso dizer. É mais uma questão de ponto de vista. Agora os jornais e a televisão falam do teu sucesso e emitem opiniões a respeito do jovem artista desaparecido prematuramente. Conhecidos foram entrevistados e fizeram depoimentos que nada têm a ver contigo. Eu sei como tu vias o mundo e te situavas nele. Falam de teus amores, tuas aventuras e até de um possível caso de homossexualismo e que me surpreendeu a firmeza da opinião. Na verdade tu não podes mais te defender e tens que admitir que maledicências fazem parte de quem está em evidência e tu agora és o artista que a morte deu a vida.
Não sofri verdadeiramente com tua morte estúpida, quem pode escolhe como dar cabo á vida, assim como entrei saí dela, sem grande importância, sem espalhafatos. Para mim, tu foste o modelo de efêmera doçura, perplexidade e incoerência e que às vezes tenho a impressão de que foste um miragem. Talvez a minha ida ao estúdio tenha essa conotação urgente: saber se realmente  foi verdade o que fomos. Peguei o livro de Mr. Maugham que estavas lendo, abri-o na página marcada e pareceu-me te ver em Larry no mesmo brilho indefinível do olhar, no mesmo desejo de salvar o gênero humano dos baixos instintos. Disseste-me uma vez que  não gostavas de Larry por ele se parecer muito contigo, no entanto ele te fascinava pela personalidade forte que brotava dele. Devolvo o livro à estante, gostaria de relê-lo, no entanto não quero nada que te tenha pertencido tão intimamente. Tua lembrança me irrita agora. Não posso admitir a tua falta de imaginação para morrer. Afinal és um artista de sucesso agora e tudo deveria ter sido feito em grande estilo. Saio afinal da tua vida definitivamente, vida a que nunca pertenci efetivamente. Nos encontramos, caminhamos paralelamente algum tempo até que nossa estrada se bifurcara e seguimos o caminho que escolhemos em sã consciência.
 Teresina, 06/09/1984. 3:00 h de 07/09/1984

RODOVIÁRIA

Era impossível não se impacientar àquela hora da noite na rodoviária O terminal rodoviário era qualquer coisa repelente que causava nojo e repulsa principalmente quando caía um aguaceiro como estava acontecendo. O vento forte impelia uma camada espessa de água contra os passageiros que se acotovelavam jogados pelos bancos imundos, recostados contra as paredes nodosas e bolorentas. Assemelhavam-se  a um bando de mendigos malcheirosos que não tendo onde passar a noite, acotovelavam-se em qualquer lugar onde pudessem resguardar a cabeça da chuva que saía intermitente.
O lamaceiro formava uma camada fina e pegajosa sobre o piso cimentado e, à medida que as pessoas iam e vinham os chapiscos de lama iam borrifando as pernas das calças deixando-as como se fossem bordadas com desenhos irregulares.
Desde cedo da noite que eu ali estava para embarcar para uma cidade litorânea a negócios. Eu havia chegado no dia anterior e resolvera conhecer um pouco a cidade que me parecera interessante numa minha passagem anterior e, uma vez que eu podia dispor de dois ou três dias parecera-me conveniente demorar-me um pouco ali. Gosto de conhecer novos lugares e como o meu trabalho obriga-me a estar sempre num ou outro lugar acho isso ótimo.
O tempo melhorara um pouco. No ar apenas uma garoa que de tão insistente parecia birra do tempo contra aqueles que ali estavam como a descontar pecados abomináveis. Impaciente eu caminhava acompanhando o comprimento do terminal. Ia e vinha com passos miúdos, sem pressa, cadenciados como se os contasse. Sento-me e começo a folhear um livro que eu trouxera com o intuito de passar o tempo quando dou com uma moça que como eu caminha pra lá e pra cá como se estivesse roída de impaciência. Comecei a acompanhá-la com o olhar naquele passeio igual, ritmado. Tinha cabelos castanhos e opacos, talvez porque estivessem úmidos da chuva; pequena, magra, queimada não do sol da praia ou piscina mas desse sol diário que fornece uma cor parda e trigueira. Era feia, mas havia na sua figura qualquer coisa que me atraiu não só o olhar mas também os sentidos. Não consegui despregar os olhos dela. Tinha uns olhos tão comuns, inexpressivos e sem graça que jamais vi em alguém. Parecia uma das personagens arrancada das páginas de Maugham. Agora o que é singular, os cabelos jogados para trás das orelhas percebi-as pequenas e delicadas. Os lábios rosados e bem desenhados suavizavam o todo do rosto. Acho que ela percebera o meu interesse pois uma ou duas vezes olhara rapidamente para o meu lado e enrugara a testa num evidente sinal de desagrado, continuando a sua caminhada. De repente ela parara na minha frente e dando dois passos adiante senta-se no mesmo banco à distância de duas pessoas. O casaco de nylon que usava na ocasião era de uma cor viva e, tão folgado que não me permitia entrever parte de sua silhueta, mas imaginei que fosse de seios pouco volumosos pelo par de calças apertadas que usava, deixando perceber uma silhueta delgada. Eu tomara um quatro num hotel no centro da cidade por ser mais conveniente para quem não conhece a cidade. Teresina é uma cidade engraçada. Tem-se a impressão de que é enorme vista de determinados ângulos. O centro da cidade, os locais mais movimentados do comércio assemelham-se a uma grande cruz onde as pessoas caminham pra lá e pra cá, despreocupados como se nada mais tivessem a fazer na vida enquanto outros correm como se tivessem pressa de chegar a algum lugar com hora marcada. Talvez essas afirmações sejam resultado de rápidas impressões de pessoas forasteiras como eu. O certo é que eu estava na rodoviária esperando o meu ônibus e aquele aguaceiro me irritava. Mas, aconteceu-me uma coisa muito interessante que, se não fora isso essa narrativa não teria uma linha sequer para sobre-existir. Caro leitor, confesso que não sou homem que ao ver uma mulher vá logo dando em cima dela. Normalmente sou cauteloso e comedido, no entanto senti-me impelido para aquela moça de maneira irresistível e foi com surpresa, até para mim mesmo, que me levantando do meu lugar, pedi licença e sentei-me ao seu lado. Como ela não dissera nem sim, nem não fui me sentando com o firme propósito de dali não arredar pé até que eu conversasse com tão interessante criatura, a meu ver. Por mais que eu me esforçasse a nossa conversa foi uma meia dúzia de perguntas incoerentes minhas e monossílabos, mal articulados, dela. Apesar de me responder com educação, olhava-me com reserva e impaciência. Ao cabo de alguns minutos pedi-lhe que me esperasse enquanto eu ia pegar a minha bagagem, ali mesmo, num daqueles guarda-bagagens da rodoviária. Ela levantou-se e, de pé na minha frente, parecia bem mais alta do que me parecera ao primeiro exame. Olhou-me de frente e os seus olhos eram grandes e negros o que lhe aumentava a inexpressividade que inexplicavelmente me atraíam como se eu estivesse num edifício bem alto e de lá avistasse o asfalto de uma rua movimentada e disse-me numa frase clara e completa: “Talvez você não me encontre mais ao voltar, pois eu resolvi não esperar mais o ônibus aonde vem o meu marido, por ser muito tarde.” Ela me falou isso tão calma e inocente como se não tivesse percebido a força do meu interesse por ela. Eu ri sem graça, dei-lhe boa noite e saí para pegar a bagagem. Quando voltei ao banco ela havia realmente desaparecido o que me deixou uma sensação de que fora apenas uma miragem; que de repente eu recostara no banco, cochilara e tivera um sonho. O certo é que todas as vezes que passo por lá, abro os olhos e vasculho por entre todas aquelas pessoas para ver se a vejo outra vez, pois, na verdade, nunca a esqueci e queria ter a certeza de que realmente eu não sonhara.
Teresina, 17/01/1984


NAZINHA

 O movimento de ônibus é intenso. O barulho ensurdecedor dos motores repercute no ar, o cheiro de óleo queimado inunda a atmosfera poluída. O vai-e-vem apressado dos transeuntes mastiga nos pés as chupas de laranja, cascas de banana, resíduos de comida ali jogados displicentemente pelos passageiros. Há algumas horas Nazinha permanece ali encostada na coluna suja e carasquenta do vão do terminal. Um cheiro nauseabundo de lama, de água podre, de restos de comida invade-lhe o estômago. Seu olhar indiferente vaga pelas proximidades, indo se perder nas águas barrentas do Parnaíba. Nem o apito sofrido da gaiola que faz a travessia Timon-Teresina acorda-a da apatia em que se encontra. Já faz parte da sua rotina ali na beira do rio, junto com as lavadeiras habituais, com as balsas que chegam nos fins de semana, os balseiros que vão e vêm a contar estranhas estórias do Cabeça-de-Cuia. Quando à noite, Baiano arranca da viola a canção antiga de pescador com cheiro de lenda, seus olhos se abrem para o rio e imagina-se fugindo nas águas em busca de algo indefinível. Nestas ocasiões, lembra-se sempre daquele estranho homem, das estória contadas por sua avó no terreiro apenas iluminado pela luz baça das estrela, que metendo os pés descalços no azul do mar, caminha por elas suavemente a buscar talvez a esperança perdida pelos velhos pescadores.
Sua bagagem se resume num saco plástico com alguma roupa. De dentro do saco rebrilha um espelho desbotado e alguma coisa de sua vaidade. Nazinha continua recostada na coluna, de braços cruzados no peito exuberante. A vendedora de laranjas comenta a dúvida da moça em voltar para casa. “Nazinha tem razão, seu padrasto quando bebe quer espancar todo mundo; bota todo mundo de casa pra fora e hoje mesmo foi lá a polícia e ela não se sente bem com isso e, parece, eu não sei bem, eu aqui não gosto de dar pitaco na vida de seu ninguém - disse estirando os olhos para a vizinha - ele anda a perseguir a pobrezinha. Coitada, sabe, eu tenho pena dela, tão bonitinha e com essa sorte infeliz. Ah, o que uma moça bonita não sofre quando tenta se resguardar”
O ônibus de Timon chega naquele momento e Nazinha vê sair de dentro sua mãe. Olhos angustiados volvendo inquietos pelas imediações antes mesmo do carro estacionar. Ao deparar com Nazinha sua fisionomia abre-se num alívio benfazejo; aproxima-se da filha pondo-lhe um olhar tão doce que Nazinha faz menção de lançar-lhe os braços ao pescoço. Fica, todavia, só no gesto. “Vamos para casa minha filha, já está tudo bem”. Olha para a mãe desalentada e decide naquele momento: não irá para casa, é tarde.
Nenhuma luz de candeeiro brilha na superfície lisa do rio que cochila silencioso. Somente em alguns pontos incertos vêem-se luzes amareladas mergulhadas no fundo do rio a sondar mistério. Na alma de Nazinha não brilha nenhuma luz, pois nela não mergulhou a paz. Sua voz é cansada e atônica. “Vou esperar Adão e vou-me embora com ele mãe.” – A mãe fita-a atônita, de seus lábios escapa a surpresa incontida: “O quê?”. A repetição não se faz esperar pausada e contundente: “Vou-me embora com Adão.” A mão da mulher dispara incontrolável atingindo o rosto moreno de Nazinha. A estupefação é geral. Nos rostos de cada um há interrogação muda e logo se forma um grupo ao redor da cena. As perguntas desencontradas se sucedem. Sua mãe chora baixinho, desalentada. Nazinha não diz nada. De seus olhos plúmbeos derramam-se uma intensa melancolia. Aproxima-se timidamente da mãe, desajeitada. Sua voz sai sussurrante: “Mãe, é melhor assim, prefiro pertencer ao homem que amo a viver perseguida pelo seu marido. Mãe, eu não agüento mais. Vá para casa e tudo vai dar certo a senhora vai ver. Adão é bom, gosta de mim, talvez até a gente se case, não é isso que a senhora quer?”
Nazinha ficara na casa da vendedora de laranjas enquanto Adão não apareceu. Sua balsa chegara, numa manhã chuvosa, de Amarante, carregada de legumes. Nazinha esperara-o sempre com o olhar carregado de ansiedade. Toda balsa que aportava corria à beira do cais para voltar desiludida. Já ia para a segunda semana que Adão partira, porém hoje o seu olhar é mais ansioso e carregado de apreensão; sabe que de hoje para amanhã ele aportará – Baiano dissera – e não sabe agora o que dizer nem como se comportar. Pensa em Adão agora de modo diferente. Teme ter se precipitado, mas o que é feito é sem jeito, pensa ainda e não é agora que vai recuar.
A chuva ainda bate monotonamente no teto do galpão do terminal e o seu cair contínuo soa aos seus ouvidos como triste balada funérea. Súbito surge lá longe, rompendo o nevoeiro tosca embarcação que lentamente desliza pela superfície encrespada do velho monge. Após uma espera que lhe pareceu eterna a “Primavera” aporta. Nem bem encosta no cais já Adão, sem camisa, calça arregaçadas até os joelhos, pula para fora da embarcação e puxando um grosso cabo de fibra amarra a embarcação à margem. Em seguida curva-se diante da imagem de Santa Bárbara. Dentro da balsa há ainda dois homens e balançando-se numa rede uma mulher. Nazinha tenta recuar diante da presença da desconhecida, Adão grita-lhe num entusiasmo que repercute através dos pingos metálicos da chuva. “Nazinha você veio me esperar?” Ela corre para ele a roupa fina grudada no corpo moreno a marcar-lhes as formas, esquecida da presença da estranha. O abraço que se segue é firme e confiante. Entram na embarcação molhados e uma doce alegria pincela-lhes as feições. A estranha olha-a e sorri. As dúvidas se dissipam e Nazinha sente que naquele momento as palavras soariam estranhas e desnecessárias. O futuro é o presente.
Teresina. 29/04/77
 
 

2 comentários:

  1. Que velhinhas, desavisadas ou inocentes? Tadinhas! Adorei o conto.
    Feliz Natal poetisa!abçs!

    ResponderExcluir
  2. Nem inocentes, nem desavisadas. Cada vez mais me surpreendo ao perceber que idade avançada nem sempre significa bondade, seriedade, sapiência, etc, etc. ouvi notícia semelhante no Jornal Nacional e escrevi o conto. Obrigada por comentar. Feliz Natal! Marlene

    ResponderExcluir