SOLEÃO
Eu vou abrir estas janelas entreabertas
Que me acenam com promessas
De namorados.
Vou fazer do silêncio
O grito da vitória
Dos meus desejos dos meus ensejos
Vou amar num século
O que se ama numa noite
Para degustar vagarosamente
O cálido vinho do amor
Amor da vida
Que tudo permeia
Na turbulência dos recônditos desejos
Que me invadem me alucinam
Me tonteiam.
Não teime em evadir-se
As janelas dos teus sonhos
Estão apenas entreabertas
Espere um pouco
Certamente soleão brilhará.
Teresina, 10/08/90
CONFUSO
Eu te vejo e revejo
No reverso dos meus versos
A dimensão do real que te excita
Te atordoa e te transporta num louco turbilhão
E te arrasta pelas silenciosas alamedas do teu ser
A imensa solidão que te cinge
O riso que te escapa da boca
Tem o travo amargo de perdas irreparáveis
E tu gargalhas o tesão gelado
Que escorre abruptamente
Pelas extremidades corporais
E por um momento não te reconheço
A excitação que te possui te busca e te exclui
No momento etéreo
De doidas confusões
E silenciosas confissões
Chispam dos teus olhos
Esquadrinham loucamente
O pequeno espaço que nos separa
Nos arrebata e nos dimensiona
No desmaiar dos nossos sonhos
Dos nossos vãos projetos verbais
Grades ideológicas
Limitam o teu horizonte
E tu vais andando em círculo
Entre as quatro paredes
Que te confina
E te conforma neste espaço
Na tentativa de destruir
Tua subjetividade
Porém o que te conforma nestes momentos
É compreender os limites
Do teu poder
Nesta via há quem burocratize
Os próprios sentimentos
As próprias emoções
Os fragmentos destas emoções
Estão espalhados em mil versos
Que te dedico
Hoje soleão recua
Mas não pára de reinar.
Teresina.
DIALÉTICA I
Saio de mim
Evado-me
Para um mundo só meu
Onde os sonhos não têm fronteiras
Onde supero as situações limite
Que me amarram
Prendem-me aqui
Ligado às convenções
Normas e valores
Que teimo em repudiá-los
Mas no fundo não os resisto
Descubro então que eu sou eu
Mais minhas contradições
Metendo a cara neste mundo cão
Abrindo veredas
Quando pretendia largos caminhos
Conquistando espaços jamais pensados
O atual processo que me envolve
Enovela-me num espaço
Que às vezes me restringe, me sufoca
E eu luto contra tantas limitações
Que não imaginei tantas
Saio de mim
Retorno a mim
Percebo-me na divisão sadia
Da dialética que me alicia
E me faz compreender
Que é mesmo assim.
Teresina, 23/03/90 meio dia
DIALÉTICA II
Liberto-me das amarras
Que me cingem
Por um momento
Doce momento este
Em que me livro
Das convenções
E dos limites que me impõem
Que me enlouquecem
E me alienam.
Teresina, 23/03/90
DIALÉTICA III
Liberto-me das amarras
Que me cingem
Por um momento
Doce momento este
Em que me livro
Das convenções
E dos limites que me impõem
Que me enlouquecem
E me alienam.
Teresina, 23/03/90
CARTA
Escrevi este poema
Acho que para ti
Uma vez que em ti
Eu pensava.
Vamos falar do amor?
Mas de qual amor falaremos?
O amor de hoje
Não é o amor de ontem
Nem será o amor de amanhã
De qual amor falaremos?
O amor... Esse rio que passa
Nunca é o mesmo
Depois que passa
Quero falar do amor
Do nosso insólito amor
Mas não do amor de ontem
Não do amor de hoje
Nem do amor de amanhã
Falaremos do amor atemporal
Que nos dimensiona
E nos dissolve
Na eteriedade do amor universal
São Paulo, 02/09/94
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